A Lenda de Tarzan

A Lenda de Tarzan

O título A Lenda de Tarzan (The Legend of Tarzan, 2016) é absolutamente adequado para este filme e se justifica já na primeira cena em que nos encontramos com o personagem criado por Edgar Rice Burroughs. Tarzan (Alexander Skarsgård), ali, é John Clayton, o Lorde de Graystoke em um esforço para se sentir civilizado entre os homens que lhe pedem que volte ao Congo onde foi criado entre os animais. Diante de suas negativas – que passam pela reafirmação de sua identidade europeia – George Washington Williams (Samuel L. Jackson) se levanta e resume todo o estereótipo do Rei das Selvas conhecido em poucas frases. Ou seja, lhe impõe sua lenda e reafirma seu status cultural dentro e fora da trama.

Fugir do lugar-comum da história de origem – ainda que de alguma forma ela seja contemplada em flashbacks – permite que o arco central do personagem de Skarsgård se estabeleça pelo conflito entre as identidades de Tarzan e John Clayton. O confronto existencialista se expande pela trama na forma de questionamento: o que afinal significa ser civilizado? Com o discurso fundamentando a caracterização de personagens. Note, por exemplo, como os únicos brancos que falam várias línguas e transitam por diferentes culturas com desenvoltura (um marco civilizatório) são justamente o Rei da Selva e sua esposa, Jane Clayton (Margot Robbie).

Por isso apresentar Tarzan junto de George Washington Williams não é acaso. Ambos farão um retorno simbólico à suas origens ao longo do filme. O primeiro volta para onde foi criado, para o lugar em que se tornou respeitado pelas tribos e por diferentes animais. O caminho do segundo é ainda mais emblemático: veterano da Guerra Civil americana, viaja à África de seus ancestrais para confirmar a suspeita de que um novo ciclo escravocrata se inicia. Assim temos uma curiosa dinâmica entre o negro que está alienado da terra de seu povo e o branco que transita por ela com liberdade.

O contraponto apresentado na figura do vilão Leon Rom (Christoph Waltz) deixa as intenções de A Lenda de Tarzan mais claras. Ele é um enviado da Bélgica para extrair diamantes e assim financiar o exército nacional. O contraste entre a forma como cada um desses personagens interage com a natureza, povo e a cultura do Congo resultam em uma interessante, ainda que superficial, reflexão sobre o colonialismo e civilização, conceitos cuja imposição via malabarismo retórico se aproxima muito do imperialismo e democracia contemporâneos.

Selvagem e civilizado; natural e artificial; grupo e indivíduo. Essas dualidades são tensionadas em A Lenda de Tarzan tanto pela trama e desenvolvimento de personagens quanto pela escolha estética – algo que não se opõe ao conteúdo, mas integra e potencializa o discurso. Praticamente não há planos médios ou de meio-conjunto em todo o filme. As tomadas mais abertas, que valorizam a natureza da selva do antigo Congo Belga, se alternam com super-closes, fechados em rostos ou mãos, algo pouco usual em superproduções que costumam operar dentro de uma cartilha bastante específica de “formas de filmar”. A opção reforça o discurso das oposições ao confrontar o particular com o comunitário.

A preocupação visual dos enquadramentos, porém, não parece ter afetado todos os departamentos. Os animais, em sua maioria de computação gráfica, são artificiais, o que é um obstáculo para o mergulho na trama. O mesmo vale para as duas sequências de ação: o assalto ao trem e a invasão da cidade. O curioso é que alguns detalhes, como as mãos de Tarzan, cuja estrutura óssea foi modificada pelos anos andando como um gorila, funcionam muito bem, atendendo ao clamor realista.

Os animais e as sequências mais elaboradas de ação são um problema, mas não chegam a afetar significativamente o resultado final. Para cada gorila cartunesco há uma troca de olhares entre Tarzan e Jane cheia de significado, sem a muleta fácil do diálogo expositivo. Para cada sequência de ação exagerada há um personagem bem definido, com um ator fazendo uma construção sólida. Juntos, estes elementos fazem de A Lenda de Tarzan um espetáculo cinematográfico de fato digno do título: preocupado com a produção de imagens, cativante e interessado em quebrar estereótipos de raça e gênero, sem fazer disso uma bandeira. Coisa rara.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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