Doutor Estranho

Doutor Estranho

Ao longo da última década a Marvel abusou do modelo de usar o cinema de gênero como base para suas produções – Homem-Formiga (Ant-Man, 2015) usa as bases do thriller de assalto, Os Guardiões da Galáxia (Guardians of the Galaxy, 2014) é uma ópera espacial. Se este processo criou um gênero independente, Doutor Estranho (Doctor Strange, 2016) é um mergulho dentro da própria Marvel, partindo da “história de origem” do primeiro Homem de Ferro (Iron Man, 2008) para ir além. O resultado é talvez o mais humano dos filmes lançados pelo estúdio.

Ao invés de fugir do risco do clichê e fazer alterações que pudessem comprometer o personagem a solução da Marvel foi abraçar as semelhanças que a história de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) possui com a de Tony Stark (Robert Downey Jr.). O elitista genial e arrogante que perde tudo e, em contato com a privação e a filosofia oriental, se reergue ostentando um meticulosamente desenhado cavanhaque. Se a jornada de Stark, porém, o leva ao isolamento e paranoia – a armadura do Homem de Ferro como metáfora máxima deste processo –, a de Strange o leva para a transcendência e empatia.

Não há sutilezas aqui. A ótica funcionalista e compartimentalizada é escancarada já na apresentação de Strange com o diretor, Scott Derrickson, enquadrando primeiro suas mãos enquanto ele se prepara para um procedimento. Sua habilidade como neurocirurgião é central na definição de sua identidade. Sem poder operar depois de um acidente de carro, impedido de exercer sua função definidora do pequeno universo em que habita, ele já não sabe mais como se portar diante do mundo.

A busca de Strange, ainda que ele não esteja plenamente consciente disso, é pela sua completude. A jornada parte da frustração pela compartimentalização hiperespecializada e distante (o corpo como uma máquina e não veículo de subjetividades próprias) evocada pela medicina ocidental para chegar ao pensamento holístico e transcendente da filosofia oriental. O que ele quer é curar suas mãos. O que ele consegue, ao contrário, é a expansão da consciência, o que leva a um universo maior a ser habitado.

A conciliação de Strange com seu tormento é a primeira chave para compreender a escolha pela reedição da História de Origem no universo Marvel. Doutor Estranho é, até agora, o mais cinemático dos filmes do estúdio. As artes místicas que envolvem a evolução espiritual do personagem são demonstradas visualmente através de distorções espaço-temporais, o que é uma manifestação tangível do próprio cinema, uma arte que se especializou na manipulação do tempo e do espaço. O universo se abre de forma literal para o Mago.

O objetivo do vilão, Kaecilius (Mads Mikkelsen), é a suspensão da história. Migrar para um lugar onde não há tempo, não há narrativa. Por isso Strange será completo apenas quando tomar as rédeas de sua própria narrativa, assumindo sua história e dando forma para um universo particular. O Olho de Agamoto, objeto mágico das histórias clássicas do personagem, se torna central para a narrativa justamente por permitir a manipulação do tempo e, assim, fornecer para Strange a ferramenta que o redimirá.

Da mesma forma como o Olho de Agamotto permite que o tempo caminhe em mais do que uma direção, o mergulho metalinguístico de Doutor Estranho é uma forma de casar forma e conteúdo de maneira ainda rara no cinema da Marvel. Mesmo se considerarmos o belo thriller de espionagem setentista que é Capitão América: O Soldado Invernal (Captain America: Winter Soldier, 2014), que usa o gênero para fazer uma dura crítica à paranoia vigilante do governo estadunidense.

Ao mergulhar no filme estará lá a manipulação do tempo e do espaço. No olhar distanciado está a reedição do primeiro sucesso da produtora. No centro está Stephen Strange, um homem que começa a compreender que curar uma parte de uma pessoa pode não ser suficiente, assim como o próprio cinema não é só um roteiro, direção, atuação ou fotografia, mas uma soma disso tudo e muito mais que explode em significados e subjetividades.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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