“Entre o Amor e a Paixão” traz uma bem-vinda inversão de papéis

“Entre o Amor e a Paixão” traz uma bem-vinda inversão de papéis

Causa um certo estranhamento, talvez mais se você for um homem, assistir “Entre o Amor e a Paixão”. O filme, afinal, acompanha uma mulher casada, Margot, interpretada por Michelle Williams, com um cara legal, Lou, papel de Seth Rogen (a encarnação do “cara legal”), que, aos poucos, se deixa envolver com um vizinho, Daniel, que é feito por Luke Kirby. O estranhamento acontece pela inversão de papéis, já que o que estamos acostumados a ver essa história sempre do ponto de vista do homem, seja ele o sedutor ou seduzido.

O problema, então, não é de “Entre o Amor e a Paixão”, mas de um machismo latente que existe em todo um subgênero de comédias e thrillers que acabam centrados nas frustrações e expectativas dos homens. A noção de que o filme pesa a mão nessa inversão acaba por ser aumentada quando vemos que quem dirigiu foi uma mulher, mais conhecida pelo trabalho como atriz: Sarah Polley.

A questão é que parte do desconforto que existe ao se assistir ao filme tem origem no fato de ser uma mulher que é esmagada com a dúvida em relação a seus sentimentos. Mas só conseguimos detectar isso ao nos perguntarmos: “Qual o problema desse filme ser protagonizado por uma mulher?” Essa pergunta acaba abrindo a brecha que Sarah busca. Afinal, não deveria haver (ao menos para humanos civilizados em pleno século 21) diferenças entre homens e mulheres. Mas o fato de nos incomodar acaba mostrando que as diferenças virtuais estão muito mais entranhadas em nosso modo de encarar o mundo do que gostamos de pensar.

Sarah não deixa isso muito fácil, porém. Não é simples entender o que separa Margot de Lou. Eles sempre riem juntos, têm suas brincadeiras, são afetuosos e atenciosos. Lou é dedicado e respeita o espaço de Margot. Mas, ainda assim, ela se deixa envolver por Daniel. Mais e mais. E é aí que Sarah começa a permitir que o filme mostre como toda essa intimidade e todo esse afeto, todas as declarações de amor que fazem parte da rotina do casal, deixem de mascarar a distância que existe entre os dois.

Um dos méritos de Sarah, enquanto cineasta, é construir uma relação de intensa proximidade e carinho entre Margot e Lou, mas que parece esvaziada de tensão sexual. Ao mesmo tempo, e ao contrário, a relação de Margot e Daniel é de muita proximidade, mas eles praticamente não se tocam (e quando ele o faz, em determinado momento, quebra a magia de um dos momentos mais bonitos do filme). Tudo pensado com calma e precisão por Sarah.

E quando o encanto de Margot por Daniel começa a se misturar com a sua frustração em relação a Lou (que parece ter se acomodado na distância criada pela própria Margot, é verdade), é que começamos e entender melhor seu lado. Mas nesse momento já fomos machistas o suficiente em relação à nossa leitura para cairmos, feito patos, na armadilha de Sarah.

Parte da graça do filme está em seus dois primeiros terços, em que sabemos tanto quanto Margot sobre sua decisão final: Daniel ou Lou. Daí que discorrer aqui sobre o último terço, que é uma consequência direta dessa decisão, estragaria a surpresa. O que é uma pena, já que Sarah ainda nos guarda algumas outras duras verdades. Sempre necessárias.

Publicado originalmente no Portal POP.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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