Life: Um Retrato de James Dean

Life: Um Retrato de James Dean

O que há por trás de uma imagem? A postura mais cínica fica entre o nada absoluto e uma sucessão infinita de outras imagens. A menos, em contrapartida, considera a possibilidade de que por trás de uma imagem está a própria vida. Ou ao menos uma fatia dela. Life: Um Retrato de James Dean (Life, 2016) é antes de tudo um líbelo pela segunda opção. A busca de Dennis Stock (Robert Pattinson) não é pela fama impulsionada pelo apelo de um prestes-a-ser-descoberto James Dean (Dane DeHaan), mas sim por conseguir apreender através de suas lentes algo da eletricidade que ele sentia naquele momento e que de alguma forma estava representada no jovem ator.

De certa forma Life representa um duplo retorno às origens para o diretor Anton Corbijn. O filme é uma biografia, o que o leva aos tempos de Control (2007) — seu primeiro longa de ficção, sobre a vida de Ian Curtis, o vocalista do Joy Division que se suicidou aos 23 anos —, mas ao mesmo tempo é a história de um fotógrafo, como ele próprio foi, registrando shows e bastidores de bandas como o U2 e R.E.M., o que lhe permitiu dirigir videoclipes e documentários sobre e para o Depeche Mode, Nirvana e Metallica, iniciando sua carreira no audiovisual.

Há ainda a continuidade dos trabalhos que lhe fizeram mais célebre nos últimos anos: Um Homem Misterioso (The American, 2010) e O Homem Mais Procurado (A Most Wanted Man, 2014). Dos dois thrillers Life herda um senso de mistério que pode soar incômodo. Não é preciso muito conhecimento para saber que Stock conseguiu de fato fazer suas fotos. Elas são, afinal, as imagens mais icônicas da Nova York dos anos 50 e os ventos da mudança que viriam com toda a contra-cultura dali em diante.

A combinação deixa o resultado irregular, mas não menos potente quando o foco está em tentar eternizar uma fatia do que estava acontecendo naquela época usado Dean como catalizador. A força das imagens produzidas por Stock vem primeiro de sua anti-glamurização: ao invés dos tapetes vermelhos, odiados pelo fotógrafo e pelo ator por sua artificialidade, vemos as frias madrugadas novaiorquinas, a boemia e a vida familiar do personagem de DeHaan. Este é o primeiro vislumbre de um mundo que será eternizado nos livros de Jack Kerouac e nas músicas de Bob Dylan.

Dean encarna esse espírito por refletir intensamente a geração de atores treinados pelo Método do Actor’s Studio de Stella Adler. Marlon Brando e Montogomery Clift já tinham dado seus primeiros passos com Uma Rua Chamada Pecado (A Streetcar Named Desire, 1951) e Rio Vermelho (Red River, 1948), respectivamente, mas Dean era uma chama ainda mais intensa. Não por acaso as performances em apenas três filmes – Vidas Amargas (East of Eden, 1955), Juventude Transviada (Rebel Without a Cause, 1955) e Assim Caminha a Humanidade (Giant, 1956) – se tornaram matéria de lenda, mesmo desconsiderando a contribuição de sua morte precoce.

Era essa fagulha, que só aparece de tempos em tempos, que Stock vislumbrou em Dean. Algo que até então só havia despertado o interesse de Elia Kazan, Nicholas Ray e George Stevens, os três diretores que tiveram que convencer seus estúdios a contratar esse jovem mais interessado em beber com os amigos em Nova York do que em desfilar pelos tapetes vermelhos de Los Angeles. Essa característica impalpável, maior do que a vida, é o que DeHaan busca alcançar em sua composição.

Há algo de transcendente no que o jovem ator faz ao tentar encarnar aquele que o precedeu. DeHaan não se limitou à semelhança física, imposta pelo tipo magricela e as olheiras profundas, em um visual que beirava o doentio, quase junkie. Sua empostação de voz e ritmo de fala ou mesmo em sua relação com o mundo que o cerca, de distância e admiração casual, ultrapassa os tiques. Dizer que ele encarna Dean é exagero. Mas existe alguma coisa ali que é tão impalpável e magnético quando o próprio Dean.

A criação de Pattinson para Stock é de outra ordem ainda que igualmente complexa. O jovem fotógrafo divide sua vida entre os flashes dos tapetes vermelhos, a frustração da carreira estagnada e a obrigação para com o filho. Três aspectos que a construção de personagem hollywoodiana típica raramente conseguem conciliar, mas que ganham harmonia e desenvolvimento através do trabalho do ator. Fruto, talvez, de ter trabalhado com diretores de primeira grandeza como David Cronenberg e Werner Herzog nos últimos anos.

A combinação dos dois, DeHaan e Pattinson, flui bem. Eventualmente há química, eventualmente há ruído, como parece ser a proposta de Corbjin. A relação é construída para funcionar através da produção das imagens, como a própria relação entre o diretor e os dois atores. Atrás das imagens de Corbjin estão as imagens de DeHaan e Pattinson. Por trás destas estão as do próprio Stock, que ilustram os créditos finais, fechando um filme com um clichê necessário. E ali, de alguma forma, uma fatia da vida se faz presente.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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