Uma ponte cinematográfica

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Com o documentário “Construindo Pontes” a curitibana Heloisa Passos usa relação turbulenta com o pai para tratar de política

Dois acontecimentos marcaram a história recente de Heloísa Passos, premiada Diretora de Fotografia e Diretora Curitibana que acaba de lançar seu mais novo documentário, “Construindo Pontes”, no Festival de Brasília e que em breve será reexibido no FicBic, o Festival de Cinema da Bienal de Curitiba. O primeiro foi uma oficina de documentários ministrada para 20 estudantes como parte do FIDÉ Brasil, o Festival Internacional de Documentário Estudantil. O segundo foi exibir o “Construindo Pontes” para seu pai, Álvaro Passos, principal personagem do documentário, em uma sessão privada.

No FIDÉ Heloisa descobriu um grupo de jovens com projetos de cinema que “pertenciam a eles. Não é que eram todos pessoais, todos tinham uma ligação própria com eles mesmos. Não é ‘quero falar sobre o Gonzaquinha’. Não. Nenhum”. Ver sua própria forma de abordar o cinema documentário refletida nos alunos lhe animou a exibir um trecho de “Construindo Pontes” no final do curso. “Dando esse curso para essa galera jovem e vendo a forma como eles estão pensando cinema, eles me deram uma força para colocar a câmera lá para meu pai”.

Pelo edital que viabilizou o filme é preciso que ele estreie comercialmente, o que deverá acontecer em maio de 2018, se tudo der certo. Mas Heloisa sentiu que para exibir em Curitiba seria necessário o aval do pai. “Acaba o filme ele fala: ‘esse filme não pode ser taxado como documentário. Ele é mais do que isso. É uma história familiar. E você conseguiu. Porque achei que você não ia conseguir. Achei que você ia ficar muito preocupada com a imagem. A montagem conseguiu. Você emociona. E o filme está aprovado’. Como se ele fosse o chefe”, diz rindo. A necessidade da filha por aprovação e do pai em aprovar é bastante simbólico da dinâmica do documentário.

“Construindo Pontes” aborda de forma bastante particular a tensão política brasileira. Álvaro, engenheiro, trabalhou em diversas obras comissionadas pelos militares e hoje possui uma visão apologética do período. Heloísa, ligada ao cinema e homossexual assumida, não consegue ver nenhum benefício estrutural ou econômico que justifique as atrocidades cometidas pelo regime. Essa diferença de visões se ressignifica na atual polarização política no Brasil. O filme, como o próprio título adianta, é uma tentativa de conciliação.

O projeto nasceu, como é comum acontecer nestes casos, de um feliz acontecimento. Dez anos atrás, ao final da exibição de “Caminho da Escola Paraná”, no MON, Heloisa recebe de um amigo de seu pai uma caixa de fitas VHS. Além de imagens de família, ali estavam uma série de filmagens de cachoeiras. Entre elas as Sete Quedas do Rio Paraná, que foram alagadas para a construção da Usina de Itaipu. O afeto nostálgico daquelas imagens amadoras, tanto pela beleza perdida do cenário natural quanto pela estética do Super 8 original, comoveu Heloisa.

“Meu primeiro ato foi ir para este lugar porque eu não conhecia as Sete Quedas, onde a gente encontra aquelas galhadas, que eu chamo de Deserto D’água”. O filme confronta imagens do passado e do presente antes de confrontar os discursos do passado e do presente. “Eu misturo a questão da perda, de perder algo público e pego esse sentimento, que é coletivo, e vou visitar um sentimento de perda meu, na minha relação familiar. O que mais mexia comigo era pensar no quanto você tem que destruir o antigo para construir o novo”.

É quando o documentário se torna mais pessoal. “Eu vou atrás desse homem que poderia ter construído essa usina, mas não construiu, das obras que ele construiu, e resolvo fazer encontros com ele, que eu não sabia o que ia acontecer. Era um ato de aproximação”. O que, claro, não quer dizer que este seja um momento de puro afeto. “Construindo Pontes”, inclusive, é aquele tipo de obra que podemos classificar como “brutalmente honestas”: “não tinha ingenuidade. Era um momento de confronto, porque somos pessoas que temos pontos de vista muito diferentes. A gente convive bem juntos. A gente não se nega”.

“O cinema nos autoriza entrar em um tempo que na vida, o dia a dia, não tem”, reflete Heloisa.“Fazendo este filme eu tive tempo de pesquisar as obras do meu pai, ir atrás das imagens de arquivo do que ele tinha construído”. Então a proposta do filme, em parte, muda para a relação de Álvaro com suas obras. “A minha largadapara filmar meu pai são as projeções. É mostrar para ele e ver como ele se relaciona com o que ele construiu para a gente se aproximar”.

Para Heloisa a diferença central entre filmes de ficção e documentários é a ideia de controle. A narrativa roteirizada não apenas permite como também exige que o realizador tenha total controle dos acontecimentos. Se chove em cena que deveria ser filmada com sol, adia-se. O filme documental permite que o acaso aconteça. Por isso o que era para ser apenas mais um dia de exibição das projeções das obras muda radicalmente quando o Jornal Nacional noticia a condução coercitiva do ex-Presidente Luís Inácio Lula da Silva. “Fui golpeada pelo Golpe”, diz a diretora, que, com este acaso, construiu uma ponte entre o passado da Ditadura com o presente pós Impeachment.

Pelas informações apresentadas até aqui é fácil pensar que “Construindo Pontes” é um filme tendencioso. A diretora é uma esquerdista que demoniza qualquer discurso conservador ou alinhado com a direita, retratando Álvaro como um velho senil que já não sabe o que fala. Não é o caso. O carinho da filha para com o pai não permite que isso aconteça e quem se torna antagonista é a própria Heloisa, que chega a declarar no filme “eu não gosto de mim quando estou com meu pai”. A honestidade brutal do documentário não poupa nem mesmo a realizadora, que retrata a si mesma como uma mulher “histérica” – para usar uma expressão usada por ela mesma – bem diferente da pessoa amável e aberta ao diálogo que concedeu a entrevista.

Durante o Festival de Brasília, na mesa redonda depois da exibição de “Construindo Pontes”, “um jornalista perguntou ‘Heloisa você não tem medo de que as pessoas que ficam no meio do muro, em dúvida, com seu pai sendo tão cativante e você perdendo o controle, você não tem medo que as pessoas acabem indo para o lado que teu pai cativa?’. A minha posição é muito clara. O filme toma posse do mundo e cada um interpreta do jeito que quiser. Esse medo não me pertence”.

“Outra jornalista não concordou”, comenta como contraponto. Segundo ela, “esse personagem não é manso. Ele é autoritário. Se você precisa se defender do autoritarismo você é a oprimida. É muito mais fácil sair do controle como oprimida do que como opressor. E de algum jeito ele tem um poder, que a personagem Heloísa não consegue argumentar, que ele é o pai. Ele não precisa sair do controle”.Com esta leitura, “Construindo Pontes” não apenas é um filme sobre as relações familiares e seus afetos mesmo diante de visões de mundo opostas, se torna também, na visão da diretora, uma metáfora sobre as relações de poder na sociedade brasileira.

Essa dualidade é montada sobre o curioso olhar de Heloisa, que filma a própria família como uma espécie de documentário etnográfico. Há uma distância fria, do observador desinteressado, combinada com a proximidade familiar. O efeito final é muito interessante por, de alguma forma, refletir a própria tensão entre a personagem Heloisa, encantada pelas imagens do passado, e Álvaro, completamente desinteressado pela própria obra. “Isso me impressionou mais ainda. Eu tinha um encantamento com aquele arquivo. E realmente, as epifanias não aconteciam. Tem, claro, um orgulho ali, mas não tem essa relação de adoração pelo que está ali. E na estrada eu fiquei, ‘pai, mas a paisagem mudou?’, porque foram muitas horas de silêncio para tirar os poucos diálogos que estão no filme”.

O silêncio escancara a tensão inerente do filme e Heloisa não esconde isso com truques de filmagem. “Construindo Pontes” cresce em sua falibilidade. “Jamais vou fazer um filme que a sinopse é ‘um filme sobre’. É ‘um filme com’. E eu fiz um filme com o Álvaro Passos, não sobre o Álvaro Passos. Foi o que eu disse para ele ontem, que a disponibilidade dele fazer um filme comigo, e ele se expor daquele jeito e aprovar o filme, é uma declaração de amor. E isso extrapola a vida. E é isso que o que está mais me interessando no cinema hoje”.

Texto publicado originalmente na edição impressa da Gazeta do Povo.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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