O Velho Guerreiro, agora nas telonas

Longa de Andrucha Waddington conta a história de Chacrinha, do início nas rádios ao fenômeno televisivo

A vontade de muitos realizadores brasileiros, a partir dos anos 80, de fazer cinema sempre foi curiosa, considerando que o Brasil, apesar de experiências de destaque, não possui tradição sólida na sétima arte. Não como países como EUA, França ou Japão, pelo menos. No espectro da produção audiovisual é a televisão o nosso marco estético mais poderoso. Curiosamente, o cinema tupiniquim começa a dar mostras de que está mudando seu ponto de partida, abraçando sem vergonha tanto a história quanto as imagens coletivas que vieram pela telinha, não a telona. Chacrinha – O Velho Guerreiro (2018), de Andrucha Waddington, que estreia na próxima semana nos cinemas brasileiros, ao menos, parece apontar para este caminho.

Sterblich como Abelardo

Já na década de 1990, início dos anos 2000, tínhamos indícios deste processo. Um Céu de Estrelas (1996), de Tatá Amaral, acompanhava um jovem que mantinha a ex-namorada em cativeiro. Ao se verem pela TV, quando o caso começa a chamar atenção, o impasse chega a uma solução trágica. Em A Máquina (2005), de João Falcão, a linguagem televisiva era tensionada com a teatral e a cinematográfica para dissolver tempo, espaço e narrativa em uma ousada e vibrante fantasia moderna. Ligando estes dois momentos históricos está Chatô, o Rei do Brasil, de Guilherme Fontes. Produção iniciada em 1995 e finalizada 20 anos depois, em 2015, tão ambiciosa quanto a vida do seu retratado, Assis Chateaubriand, o homem que trouxe televisão para o Brasil.

Apesar de ser, tecnicamente, um filme dos anos 1990, Chatô se conecta melhor com as narrativas contemporâneas, ao usar o escrutínio de uma figura televisiva como desculpa para usar estratégias e a estética da televisão, transformando o julgamento/biografia de Chatô em um grande programa de auditório. O que soava como ruído no cinema brasileiro, agora se torna valor de produção. É assim com Bingo: O Rei das Manhãs (2017), de Daniel Rezende, que ficcionaliza a trajetória do primeiro ator por trás do nariz vermelho do Bozo, e, claro, com este Chacrinha, que tenta dar conta da vida e obra de José Abelardo Barbosa, o Chacrinha.

O filme começa com o momento em que Chacrinha (velho, Stepan Nercessian), sempre de temperamento explosivo, briga com Boni (Thelmo Fernandes) e rompe com a Globo. Parte daí para uma longa digressão sua juventude, quando jovem imigrante pernambucano Abelardo (jovem, Eduardo Sterblitch) abandona um trabalho como baterista de banda de navio de luxo para ficar no Rio de Janeiro buscando se estabelecer como locutor de rádio. É a melhor sequência do filme, em que acompanhamos a persona de Chacrinha, sua mistura entre indivíduo e personagem, começam a ser moldadas, primeiro nas rádios, com plateia ao vivo, e depois em frente às câmeras.

Tudo é anedótico na vida de Chacrinha. A voz gutural, a postura com a barriga projetada para frente, o vício em trabalho e cigarro e a dor de barriga crônica quando nervoso. Ao mesmo tempo, essas características, segundo a defesa do filme, vão sendo exageradas ou refreadas na criação da persona pública. A beleza, tanto do trabalho de Sterblitch quanto de Nercessian, é saber quando abraçar a caricatura – sempre diante das câmeras ou com um microfone nas mãos – e quanto disso deve ser trazido para o dia a dia. O que sobra é um tanto da voz, rouca pelo hábito e pelos cigarros, e da atitude maior que a vida. O mundo era mais colorido quando Chacrinha estava por perto.

Infelizmente, estes são os momentos que vazam pela estrutura armada do filme de Waddington. Esta, afinal, é mais uma daquelas cinebiografias que tenta abraçar coisas demais. Mas se a vida não cabe no cinema, quem dirá a de um homem como Chacrinha? Aí as narrativas ficam desencaixadas. Ficamos sem entender como a briga entre Abelardo e a mãe afeta a postura em cena de Chacrinha. Ou a ausência na criação dos filhos, ou mesmo o acidente de um de seus filhos gêmeos. Estes elementos estão lá mais para responder a pergunta retórica, feita por ninguém, que é “como contar a história de Chacrinha sem mencionar suas tragédias pessoais? Não ficará falso?”.

Ora, é o mesmo que se perguntar como contar a história de Chacrinha descolado das mudanças sócio-políticas da segunda metade do Século XX. E, ainda assim, tirando uma menção à Segunda Grande Guerra e uma desavença com uma censora da Ditadura Militar, muito pouco do contexto histórico são relevantes para o filme. A relação entre a vida pessoal e a profissional segue a mesma lógica. Claro, o jeito turrão e intempestivo de Abelardo é uma marca importante de sua personalidade que faz o trânsito entre os dois universos, diante e por trás das câmeras, mas depois de vê-lo abandonar um emprego e brigar com a própria Globo, quantas cenas dele não querendo falar com a mãe são necessárias?

Isso não quer dizer que Chacrinha – O Velho Guerreiro seja um filme sem méritos. Pelo contrário. Waddington imprime graça nas imagens, sempre coloridas e sempre vivas, como o próprio Chacrinha era, e exige bastante de seus atores. Especialmente dos já citados Sterblitch e Nercessian, com quem já havia trabalhado em Os Penetras (2012) e sua continuação de 2017. Além disso, o diretor dá graça e ritmo ao filme, abrindo mão da principal característica da estética televisiva: o andamento oscilante.

Waddington, desde os videoclipes dos Paralamas do Sucesso, passando pelo charmosíssimo (além de, hoje, revolucionário) Eu, Tu, Eles (2000), sempre soube dar ritmo a suas narrativas. Até mesmo Os Penetras, filme que nas mãos de diretores menos talentosos poderia ser apenas mais uma variação de Até que a Sorte nos Separe (2012) – bobo, portanto –, ganha um pouco em interesse. Chacrinha – O Velho Guerreiro se beneficia muito disso. Até mesmo quando o melodrama familiar atravessa a narrativa, derrubando, em parte, a diversão trazida pelo próprio Chacrinha, o filme ainda ganha o público. Algo que as atrações do próprio José Abelardo Barbosa sempre soube fazer com maestria.

Texto publicado originalmente na edição impressa da Gazeta do Povo.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR, mestre e doutorando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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