“Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” encerra a trilogia com mais acertos que erros

Batman - O Cavaleiro das Trevas Ressurge

A verdade é que só vai dar para dizer se “Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge” está à altura de seu mito em alguns anos. As altas expectativas, a enxurrada de especulações e a quantidade absurda de textos e vídeos sobre o assunto publicados todos os dias na internet desde que a produção começou simplesmente não deixam que qualquer um de nós tenha algum tipo de distância crítica mínima.

E comprovar o que eu disse acima é fácil. Basta comparar os textos publicados pela imprensa americana na semana passada, quando o filme estreou por lá, com esta. Antes, com o calor das primeiras impressões, a maioria dos críticos se ateve a elogios rasgados. Nesta, parando para pensar alguns dias sobre o assunto, o tom foi de apontar defeitos e de dizer que talvez o filme não seja tudo isso. Mas, por aqui, vamos tentar ir com calma.

O filme se passa oito anos depois do final de “O Cavaleiro das Trevas”. Batman, novamente interpretado por Christian Bale, segue culpado pela morte de Harvey Dent, o que motiva a criação de um pacote de leis, que coloca na cadeia a maioria dos criminosos de Gotham. A cidade está limpa e por isso Bruce Wayne agora vive recluso, de luto por causa da morte de Rachel e com o tempo lhe cobrando a conta do intenso esforço físico. Mas a aparente paz é ameaçada por Bane, monstro interpretado por Tom Hardy, um terrorista que acaba tomando toda a cidade como refém em um manifesto sociopolítico. E é isso que motiva o retorno do morcego.

No meio disso tudo, uma série de novos personagens aparece para compor o drama de Christopher Nolan. Temos o jovem e idealista policial vivido por Joseph Gordon Levitt, a ladra Selina Kyle (é a Mulher-Gato, mas esse nome não é falado), papel de Anne Hathaway, e Marion Cotillard como Miranda Tate, investidora nas Indústrias Wayne e interesse amoroso do milionário. Algumas caras velhas conhecidas, claro, estão de volta, como Michael Caine como Alfred, Gary Oldman como o Comissário Gordon e Morgan Freeman como Lucius Fox.

Novamente, um dos quadrinhos clássicos do herói vai nortear ao menos uma parte da ação. Se “Begins” teve “Batman: Ano Um” e “O Cavaleiro das Trevas” (o filme) teve “A Piada Mortal” e “O Longo Dia Das Bruxas”, “O Cavaleiro das Trevas Ressurge” vai absorver “O Cavaleiro das Trevas”, grande clássico de Frank Miller. É fácil encontrar as marcas comuns às duas obras: Wayne aposentado e recluso; o inimigo que se aparelha no subsolo; a derrota por alguém mais jovem e mais forte em uma batalha na lama/esgoto; a necessidade de deixar um legado; entre tantos outros.

A ação é vertiginosa e, como em “O Cavaleiro das Trevas”, começa já na primeira cena, a que apresenta o vilão. Depois o filme faz um longo suspiro, tomando o tempo que Nolan considera necessário para que todas as peças de seu drama se posicionem. Mas não se enganem, a trilha, tão primária e tribal, dá tom e ritmo ao preâmbulo, não deixando a peteca cair. Mas uma coisa é certa: o filme só começa mesmo quando Batman se encontra com Bane pela primeira vez.

Porque é nesse ponto que Nolan consegue imprimir uma espécie de “fechamento filosófico” para a história do herói, além de se redimir do tom direitista de “O Cavaleiro das Trevas”. Afinal Batman caiu. Ele foi atingido mais forte e de forma mais dura do que jamais havia lhe acontecido. Mas, nós caímos, diz seu pai em um breve flashback de “Begins”, para que possamos nos levantar. Daí o “ressurge” do título, que será dito várias vezes, diretamente ou através de metáforas e sinônimos, ao longo de todo o filme. Exatamente como “Begins” é recheado de “começos”, “inícios” nos diálogos.

E a coisa é que Nolan pareceu se arrepender do desfecho de “O Cavaleiro das Trevas”, em que uma mentira foi usada para limitar liberdades por um bem maior (Presidente Bush manda lembranças). Em “Ressurge”, boa parte do arco dramático central envolve Batman e Gordon precisando lidar com as consequências de seus anos. Ainda assim, acaba trocando os pés pelas mãos ao fazer sua versão do Occupy Wall Street, já que em sua Gotham, os 99% aparecem como criminosos, obrigatoriamente.

O espectador mais atento pode ainda se incomodar com o fato de que algumas relações são superficiais demais. Batman/Wayne confiam muito em alguns personagens que ainda não haviam feito por merecer isso. Especialmente as femininas. No caso de Miranda Tate, podemos até pensar que a relação foi desenvolvida ao longo dos oito anos anteriores, mas ainda assim, por tudo o que já conhecemos de Wayne, parece forçado. O que, infelizmente, entrega muito fácil a grande virada no roteiro.

Que fique claro, porém: esses (e outros tantos) problemas no roteiro, mesmo a batalha final, que parece meio boba e anticlimática, não passam de detalhes. Detalhes que dependem praticamente uma escolha sua perceber ou não (mas, infelizmente, é parte da minha função com este texto apontar). A parte importante nisso tudo está que, sim, o Cruzado de Capa parte em uma jornada de redenção pessoal e a gente se diverte bastante com todo o tom sombrio e solene, além das grandes cenas de ação, ao longo do processo.

Publicado originalmente no Portal POP.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

1 ComentárioDeixe um comentário

  • […] Isso pega um pouco porque Interestelar não é nem de perto o filme que quer ser (ou o filme que acha que é). Funciona muito mais como profissão de fé de Nolan em relação ao poder transformador e redentor do cinema – simbolizado na nossa capacidade de resolver problemas impossíveis e de auto sacrifício por um bem maior – do que como thriller de ação genérico, que é o que boa parte do público espera. Especialmente ao ver nos créditos o nome do diretor que trouxe os últimos três Batmans. […]

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