Estreando em longas, Kleber Mendonça faz retrato das relações sociais no Brasil

A scene from Kleber Mendonça Filho's NEIGHBORING SOUNDS,  playing at the 55th San Francisco International Film Festival, April 19 - May 3, 2012.

Abrindo o jogo: tive a oportunidade de participar de uma oficina com Kleber Mendonça Filho, diretor e roteirista de “O Som ao Redor”. O filme foi exibido duas vezes. Na segunda acompanhamos Mendonça explicar, cena a cena, quase frame a frame, tudo o que estávamos vendo. Desde sua relação pessoal com as imagens, até as escolhas feitas em relação a locações, enquadramentos, edição de som, enfim, o lado mais técnico da coisa. Isso tudo para dizer que meu olhar sobre o filme acabou ficando bastante contaminado pelo olhar do próprio diretor.

Não há uma trama mestre, ou uma história a ser seguida em “O Som ao Redor”. É quase como se Mendonça ligasse sua câmera na rua em que cresceu no Recife e nos mostrasse o que captou. Personagens entram e saem de cena o tempo todo, sem seguir uma ótica funcionalista – no sentido de que toda cena tem a função principal de fazer com que a narrativa ande. As cenas estão ali para provar um ponto. E esse ponto tem muito a ver com a vontade de se fazer uma radiografia nas relações sociais do Recife e, com um pouco de boa vontade de nossa parte, do Brasil.

Para isso, quatro subtramas se entrelaçam. A mais descolada é a da família de classe média, moradora em um apartamento na rua, chefiada pela mãe Bia, interpretada por Maeve Jinkings, que precisa lidar com a irritação dos latidos do cachorro do vizinho. Essa rua é controlada por Francisco, papel de W.J. Solha, patriarca de uma grande e poderosa família. Ele é dono de parte dos terrenos dali. Dessa família se desdobra a história de um neto de Francisco, João, interpretado por Gustavo Jahn, e o começo do seu relacionamento com Sofia, feita por Irma Brown. Por fim, há o grupo de vigias de rua, chefiados por Clodoaldo, papel de Irandir Santos, que chega de repente, oferecendo seus serviços aos moradores.

Todas essas tramas, e outras tantas subtramas, estão ali para mostrar um profundo conflito de classes que ainda existe na sociedade. Os abastados, mandando e desmandando à revelia; os desprovidos, lutando para não morrerem afogados; e a classe média que absorve o comportamento – e talvez o pior dele – de ambos os lados. Tudo elevado à décima potência quando passamos por uma espécie de interlúdio no engenho decadente comandado por Francisco. É como se Mendonça escancarasse uma verdade muito incômoda: não há diferenças entre senzala e o quartinho de empregada.

Mas nem só de bandeiras sociais vive “O Som ao Redor”. Há muito carinho na forma como Bia e sua família são mostradas. Ou nas relações entre os, digamos, integrantes do baixo clero, que envolve, além dos seguranças de rua, as empregadas das casas, os entregadores, flanelinhas e toda uma população que vive de servir. E mesmo os ricos são mostrados como seres humanos tridimensionais que, se fazem algo de ruim, é pensando em proteger a si mesmos e aos seus.

Não dá para batizar um filme de “O Som ao Redor” sem que deixemos de prestar atenção na trilha. Ou na falta dela, no sentido comum de usar música para enfatizar as emoções em cena. As músicas que ouvimos são ouvidas pelos personagens ao mesmo tempo. Bem como os barulhos da rua, dos carros, das crianças brincando, dos portões batendo, do tal cachorro e das ondas do mar do Recife. Tudo cria uma ambientação que não apenas ajuda a mergulharmos no pseudorrealismo do filme – porque ele flerta, de tempos em tempos, com um surrealismo -, como milita por essa vontade de retratar aquele mundo fechado naquela rua.

Afinal é o som que vai nos despertar para a catarse, confirmando o que já sabemos mesmo sem ver a cena. E, ao mesmo tempo, uma espécie de justificativa narrativa para manter no filme duas tramas em paralelo que praticamente não se tocam. O que não deixa de ser um final particularmente surpreedente, podendo agradar os fãs de viradas bruscas no roteiro.

Publicado originalmente no Portal POP.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

1 ComentárioDeixe um comentário

  • […] “O Som ao Redor” ultrapassou 100 mil espectadores em salas de cinema. Na semana passada o longa estreou no iTunes, podendo ser visto por praticamente qualquer pessoa que tenha acesso à internet (e um cartão de crédito). Com isso, chegou ao quinto lugar, entre os filmes mais vistos, disputando com “007 – Operação Skyfall”, “As Aventuras de Pi”, “Amanhecer – Parte 2″ e “Argo”. Tudo bem impressionante se você considerar o tom intimista do trabalho. […]

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