“Game of Thrones” S05E08 – “Hardhome”

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Este é, finalmente, o episódio que justifica a série. Depois de sete capítulos morosos – ainda que recheados de grandes momentos dramáticos e que tenham desenvolvido e humanizado diversos personagens –, fomos recompensados com uma grande sequência de batalha digna dos melhores momentos de todo o “Game of Thrones”. Mas, antes disso acontecer, vimos algumas coisas bem interessantes.

“Hardhome” começa com uma audiência entre Tyrion Lannister e a Rainha Daenerys Targaryen, em um dos diálogos mais rápidos e bem escritos já entregues até agora. O Anão é brutalmente honesto em suas intenções, o que deixa a Khaleesi completamente desarmada. Quando a série volta a dar atenção para os dois, que tomam vinho nos aposentos particulares dela, podemos compreender sobre o que se trata, afinal, tanto este episódio quanto toda essa temporada.

Em um texto da semana passada, escrevi sobre como a ordem dos Sparrows faz um primeiro movimento do povo em direção aos nobres, o que culmina na prisão de duas Rainhas. “Hardhome” reafirma isso, começando por uma linha de diálogo em que Tyrion diz para Daenerys ser impossível governar sem os nobres, logo depois de fazer um rápido resumo de como está a organização de poder entre Starks, Lannisters, Baratheons, Tyrells e Targaryen. Khaleesi diz então que não tem o menor interesse em parar essa roda. Ela quer destruí-la.

Essa é a maior alteração no Jogo dos Tronos nesta temporada. Em praticamente todas as outras quatro, todas as decisões eram tomadas pelos bem nascidos. Mas agora isso não pode se manter. Esse “conflito de classes”, na falta de uma expressão mais adequada, marca tanto a administração de Daenerys em Meereen, que luta para conciliar os interesses entre ex-escravos e nobres, quanto a luta da Patrulha da Noite para manter os Selvagens acima da Muralha, passando pelos levantes dos Sparrows e o treinamento de Arya.

Note como sua primeira missão envolve encarnar uma pessoa do povo para reduzir a opressão de um aproveitador. Arya aprende não apenas o poder que há em não ser notada (em uma extensão do que havia acontecido quando ela serviu Twin Lannister disfarçada de garoto), como também entende toda a dor que há no dia a dia das pessoas comuns. Essa é a grande força do Deus das Muitas Faces, metáfora que encontra o ápice além da Muralha.

Os Selvagens, ou como eles preferem, Povo Livre, rejeitam todo tipo de ordenação social que implique em privilégios. Há lideranças, mas não há hierarquia. Tanto que a cisão entre os que aceitam a proposta de Jon Snow e os que resolvem ficar para trás é absolutamente amigável. Qualquer decisão individual pode e deve ser respeitada. A Muralha protege Westeros dessa ideologia libertária. Até agora.

Esta primeira batalha entre os homens e os White Walkers aprofunda ainda mais essa questão. Os zumbis brancos representam a massa acéfala, que segue sem pensar, como um imperativo comum – um exército de desmortos possui essa significação desde os primeiros filmes de George A. Romero, o grande precursor de filmes de zumbi. Mas não é isso o que o povo significa. Em “Game of Thrones”, especialmente nesta temporada, a população não é um conjunto de iguais, mas sim formada pela combinação de diversas individualidades. Esta é a motivação da batalha de Hardhome, a vila do Povo Livre que empresta seu nome ao episódio.

Além de ser uma profunda metáfora do embate que está para surgir em Westeros, a batalha ainda é uma das sequências mais bem filmadas de toda a temporada, com quase 20 minutos de ação ininterrupta, alternando longos planos sequência com cortes rápidos e dando agilidade e leveza para a batalha. Fica muito claro que o tom morno dos capítulos anteriores foi desenhado especialmente para valorizar este clímax.

Agora nos resta esperar pelo nono episódio, que, tradicionalmente, traz grandes surpresas. O fato de ele ter sido batizado como “A Dança dos Dragões” aumenta bastante as expectativas.

Publicado originalmente no Portal POP.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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