Na superfície, “Philomena” é um drama sobre como uma mulher parte em busca de seu passado, contando com a ajuda de um jornalista para encontrar seu filho, que foi tirado de suas mãos 50 anos atrás. Mas Steve Coogan, roteirista e ator que interpreta o jornalista, junto de Stephen Frears, o diretor, arrancam bem mais dessa história real – como tantas outras que o cinema anda recebendo todas as semanas – do que essa sinopse em um frase deixa transparecer.
Em uma genial tira em quadrinhos, Bill Waterson, através de seu Calvin, definiu o amor como uma “série de reações físico-químicas que têm como função a perpetuação da espécie” (cito de cabeça). O que parece fazer sentido, já que é o amor que forma famílias e leva à procriação. Exceto quando não faz. O que é bastante comum, na verdade. Há uma série de questões no amor que não respondem à biologia. É um problema de outra ordem. E é desse tipo de problema que é feito o belo “Ela”, mais novo filme de Spike Jonze.
O espírito de “Caçadores de Obras-Primas”, seu coração, está no lugar certo. Já faz um tempo que o cinema parece clamar por um filme de guerra com a leveza de um “M.A.S.H.” ou “Hogan`s Heroes”. Mas a execução, infelizmente, deixa a desejar justamente porque esse clima mais suave não é abraçado em sua plenitude. O que acontece é que, quando ele resolve ficar mais pesado, dando um certo choque de realidade, o tom é tão deslocado que o estranhamento é inevitável.
Logo depois das charmosas vinhetas das produtoras em versão vintage setentista vem a primeira imagem de “Trapaça”: um close da agora proeminente barriga de Christian Bale – até outro dia perfeitamente em forma para viver o Batman. A câmera, depois, sobe para seu ritual de preparação do cabelo, já que ele é careca e usa o que sobrou dos lados para cobrir o topo. É desse fetiche, o da entrega de seus atores, que vive agora David O. Russell, o diretor. Não que ele esteja errado em ter orgulho do trabalho na hora de escolher e preparar seu elenco, além do subsequente resultado disso. Mas é uma pena que a história seja relegada em segundo plano.
A ideia é reapresentar o personagem, atualizando sua história e estilo. Nesse sentido, o primeiro arco – quase um prólogo – é bem interessante. Acompanhamos Ryan na faculdade que ouve o chamado patriótico e se alista. O acidente, tempo de reabilitação e recrutamento pela CIA, através de Thomas Harper, vivido por Kevin Costner. Ele se torna, então, um agente infiltrado em Wall Street, com a missão de tentar descobrir possíveis movimentações para financiamento de grupos terroristas. É quando ele esbarra nas contas do magnata russo Viktor Cherevin, vivido por Kenneth Branagh, que aqui assume também a função de diretor.
Filmes de samurai são como faroestes. Sempre há lugar para mais um. Filmes de samurai que terminam em uma batalha épica e sangrenta, motivada por honra e vingança, então, quanto mais melhor. Só por esse princípio, “47 Ronins” já não é um desperdício completo. Mas, apesar de algumas escorregadas absolutamente desnecessárias – e não estou falando apenas de Keanu Reeves -, ainda é um filme com algum mérito.
Na comemoração da virada do ano de 2008 para 2009 o jovem Oscar Grant, de 22 anos, pai, ex-presidiário (preso por tráfico), foi morto em uma estação de metrô na região metropolitana de San Francisco, Califórnia, enquanto voltava para casa com seus amigos. O incidente aconteceu por um erro de um policial que decidiu atirar nas costas do jovem, enquanto este estava sendo imobilizado. O fato gerou revolta na população, que se manifestou contra preconceito de cor através de violentos protestos.
As três frases acima resumem, em estilo jornalístico-telegráfico o que aconteceu com Oscar e as consequências disso. O que elas não contam é quem foi Oscar. O que ele queria da vida? Quais suas aspirações? Como era sua relação com a família? E são essas perguntas que “Fruitvale Station: A Última Parada” tenta responder. Ao transformá-lo em uma pessoa real, ao lhe retirar o status de estatística, com seus defeitos e qualidades, o filme desnaturaliza discursos prontos, escancarando o preconceito racial ainda latente.
Parte da função do cinema – da arte, vá lá – envolve revisitar e reapresentar a história. Dentro desse universo específico, a Segunda Guerra Mundial sempre foi fonte de belos trabalhos. Tanto na seara do filme de guerra, quanto de dramas. Especialmente o sofrido pelo povo alemão (sejam judeus, ciganos, gays ou não) que não necessariamente compactuava com as imposições do Partido Nazista. “A Menina que Roubava Livros” pode não ser o melhor, nem mais preciso (ainda que esteja muito acima de atrocidades literário-cinematográficas como “O Leitor”), mas cumpre bem essa função por conta da popularidade do livro, que, espera-se, será transferida para a bilheteria.
O mercado de ações é a perversão máxima do sistema capitalista. Ganha-se dinheiro, e muito, sem que nada seja produzido. Nem um cinzeiro. Nada. Em tempos de crise financeira, nada mais natural que a ficção se volte para esse universo, que se materializa em Wall Street. E, agora, Martin Scorsese concentra todo o vazio do enriquecimento que, mesmo quando é lícito, é imoral, em uma única figura: Jordan Belfort, interpretado por Leonardo DiCaprio.
A melhor coisa que dá para falar de “Frankenstein: Entre Anjos e Demônios”, é que ele respeita bastante o que foi estabelecido em “Frankenstein”, clássico de horror escrito por Mary Shelley. O que quer dizer que entusiastas do cânone (eu incluso) não deverão se descabelar loucamente quando o monstro for chamado de Frankenstein – não é, em momento algum.
