O Legado de George Lucas

George Lucas, with actor Anthony Daniels, in costume as C3PO on the set of Star Wars, 1977. (PhotoFest)

Nesta semana chega aos cinemas do mundo todo o aguardado segundo capítulo da nova trilogia dedicada à saga da família Skywalker: Star Wars: Os Últimos Jedi, dirigido agora por Rian Johnson, sob o selo da Disney, atual dona da Lucasfilm. O filme, junto de O Despertar da Força, de 2015, e Rogue One: Uma História Star Wars, de 2016, marca a terceira produção ambientada neste universo sem o envolvimento criativo de George Lucas, o responsável pela criação da saga.

Quase em simultâneo chega às livrarias George Lucas: uma vida (editora Best Seller), extensa biografia não autorizada do “pai” de R2-D2 e Darth Vader, escrita por Brian Jay Jones. Considerando a recepção calorosa dos novos Star Wars, tanto de público quanto de crítica, algo bem diferente do que aconteceu com os prólogos lançados no início nos anos 2000 ou com as diferentes versões retocadas da Trilogia Clássica, os lançamentos do livro e do filme fornecem uma boa oportunidade para examinar o legado de Lucas, tanto para os envolvidos com a saga, quanto para a cultura pop.

Diante da trajetória de Lucas, o que talvez mais impressione seja justamente como alguém cujo impacto cultural é tão grande, responsável pela criação de uma mitologia moderna – algo que apenas J.R.R. Tolkien, se não fosse tão católico, poderia se gabar de ter feito com seu O Senhor dos Anéis – se tornar ostracizado na produção dos novos filmes. Sua mania de controle, perfeccionismo, personalidade retraída e apreço pela tecnologia em detrimento do desenvolvimento de personagens, características que o tornam um colaborador, digamos, complexo, não dão conta de totalidade do problema.

Comparemos a carreira de Lucas com seu grande amigo e rival, Steven Spielberg. O diretor de E.T. e Indiana Jones é uma cria do mesmo contexto sócio-cultural, o da Califórnia dos anos 60 e 70, e tão fascinado pela tecnologia quanto Lucas. Mas Spielberg foi capaz de se reinventar, alterando grandes produções como Jurassic Park com dramas sérios e adultos como A Cor Púrpura ou A Lista de Schindler, se permitindo fazer filmes com orçamento pequeno (para seus padrões), como Prenda-me se For Capaz e O Terminal. Lucas, ao contrário, graças à teimosia e perfeccionismo que o faziam revisitar a franquia obsessivamente ao longo dos anos, jamais conseguiu se libertar de Star Wars.

A outra crítica constante, bastante marcada durante e depois dos lançamentos dos Episódios I, II e III, seria o forte interesse pelos avanços tecnológicos do cinema. Mais uma comparação ajuda a mostrar como Lucas é tratado de forma diferente: James Cameron, de Exterminador do Futuro, Titanic e Avatar – que também faz filmes voltados para o desenvolvimento tecnológico, mas que nunca chegaram a influenciar a cultura pop como os Star Wars – jamais seria considerado uma “má influência” para novos filmes das franquias que ajudou a estabelecer como acontece com Lucas.

Marcas notáveis

Ao se olhar para o cinema americano dos últimos 40 anos é impossível não notar a importância do trabalho de George Lucas. E não apenas por Star Wars, pelo notório licenciamento de merchandising relacionados aos filmes; pela famosa companhia de efeitos especiais criada especialmente para a franquia, a Industrial Light & Magic; ou pela instalação do som THX na maior quantidade de salas de cinema possível, valorizando o delicado design e efeitos de som da saga dos Skywalkers. Mesmo seus dois primeiros filmes deixaram marcas fáceis de serem notadas, provando méritos como cineasta e montador.

Seu primeiro longa, THX 1138, era sobre um homem que tentava escapar de uma distopia burocrática que suprimia os sentimentos dos habitantes através de drogas fornecidas pelo governo. A estética da ficção científica influenciou diversas outras obras, como Brazil, o filme, Matrix e Equilibrium. Seu trabalho seguinte, Loucuras de Verão, é uma comédia escapista fortemente calcada nas memórias da infância e adolescência do próprio Lucas em Modesto, pequena cidade da Califórnia. A estrutura narrativa, sem um personagem central que guia a história, antecipava em dois anos Nashville, de Robert Altman, e estabelecia o estilo que seria aproveitado anos depois por Picardias Estudantis e Jovens, Loucos e Rebeldes e sua continuação espiritual, Jovens, Loucos e mais Rebeldes, ambos de Richard Linklater. O delicado desenho de som de Loucuras de Verão ainda influenciaria diretores como Quentin Tarantino e os irmãos Joel e Ethan Coen.

De acordo com o livro de Brian Jay Jones Lucas nunca se preocupou com as críticas aos seus filmes. Afinal, o público sempre iria aos cinemas ver suas Guerras nas Estrelas. O que talvez tenha mudado de 1999 em diante, quando A Ameaça Fantasma estreou, foi a internet, ferramenta que fomentou o revisionismo. O pensamento vigente parece ser que o responsável pelos fracos Episódios I, II e III não pode ter sido o mesmo que entregou os clássicos IV, V e VI. Não ajuda que o próprio Lucas tenha mudado diversas vezes o relato de sua própria relação com a saga, insistindo, por exemplo, que a ideia de lançar a trilogia clássica antes tenha sido premeditada desde a concepção.

A importância de George Lucas foi sendo diminuída enquanto a do produtor Gary Kurtz, da editora Márcia Lucas (esposa de George na época) e do roteirista Lawrence Kasdan era aumentada. Kurtz teria sido o responsável pela direção de atores, enquanto Márcia seria a editora que faria toda a bagunça fazer sentido. Kasdan teria dado coerência e dinamismo aos diálogos terríveis escritos por George. Como resultado, depois da aquisição pela Disney, Star Wars finalmente teria uma vida independente de seu criador.

Complexo de Édipo

George Lucas: uma vida não é a primeira e tampouco será a última biografia dedicada ao cineasta, mas é provavelmente a mais completa, começando pela história da chegada de seu pai a Modesto e com um último registro de meados de 2016, quando Lucas, com 72 anos recém completos, procurava um lugar para instalar seu ambicioso – como praticamente tudo o que fez na vida – Museu George Lucas de Arte Narrativa (segundo uma notícia publicada pela “Variety”, apenas em junho de 2017 ele conseguiu a permissão para construir o museu em Los Angeles, depois de ter sido rejeitado por San Francisco e Chicago).

O fato de essa biografia ser não autorizada, combinado com a notória discrição de Lucas, dá a sensação de um perfil distanciado, já que muitas das informações e relatos são tiradas de entrevistas dadas pelo diretor ou pela equipe e elenco a outros veículos. O resultado é uma visão de George Lucas fortemente influenciada em parte na imagem pública que ele se esforçou para construir, do gênio para os negócios e criador de franquias bilionárias, e em outra parte na que jamais conseguiu esconder, do maníaco por controle com uma pitada de complexo de Édipo – dimensão que aparece muito fortemente em sua obra.

Esta pode parecer uma afirmação estranha, considerando a proporção que sua obra tomou no inconsciente coletivo mundial, mas Star Wars é uma obra bastante pessoal para George Lucas. A relação desigual entre o Império e os Rebeldes pode ser lida como uma metáfora para a Guerra do Vietnã, que se arrastava pela primeira metade dos anos 70, mas é muito mais facilmente associada ao desprezo de Lucas pelos grandes e engessados estúdios de Hollywood (sua aversão por Los Angeles lhe faria levar toda a estrutura da Lucasfilm para San Francisco, no Norte da Califórnia). Ao mesmo tempo, a tensão entre Luke Skywalker e Darth Vader era um reflexo claro da relação igualmente tensa entre Lucas e seu pai, George Lucas, sr.

Star Wars é fruto máximo da jornada do próprio Lucas por controle. Seu grande talento sempre foi como montador, manipulando as imagens e sons para criar novos significados. Ao ver que o diretor poderia interferir em seu trabalho, decidiu que ele próprio deveria dirigir seus filmes. Nesta posição, viu que os produtores, especialmente os dos grandes estúdios que nada entendem de cinema, poderiam afetar o resultado final quase sempre de forma negativa. Assim, a frustração de cada passo o fazia subir um novo degrau na hierarquia chegando até a pagar pela maior parte da produção do próprio bolso, arriscando tudo, mas garantindo que sua visão pessoal estaria nos filmes.

O desafio encarado por Kathleen Kennedy, a produtora veterana que foi preparada pelo próprio Lucas para assumir a Lucasfilm depois da venda para a Disney, era conseguir libertar Star Wars do personalismo de seu criador. Para isso trouxe de volta o mesmo Kasdan que escreveu O Império Contra-Ataca e J.J. Abrams, depois de ter dirigido Missão: Impossível 3 e dois Star Trek já era um especialista em assumir franquias já estabelecidas, mas dono de uma necessária aura artística.

É em parte por esta combinação de talentos que O Despertar da Força busca um equilíbrio delicado entre nostalgia, arcos dramáticos estabelecidos e surpresas de ordem mais cosmética do que efetiva. As semelhanças com Uma Nova Esperança (ambos encontram o personagem central em um planeta deserto que precisa levar um droid com uma mensagem até os Rebeldes e descobrem, no caminho, possuir um destino heróico. Ambos também terminam com a explosão de uma Estrela da Morte) fazem com que o Episódio VII perca muito de sua força ao ser revisto. Segundo o livro de Brian Jay Jones, Lucas não ficou impressionado.

Influência de Kurosawa

Rogue One: Uma História Star Wars, talvez o melhor lançamento da franquia desde O Império Contra-Ataca, é mais ousado ao contar a história de como os Rebeldes conseguiram os planos da Estrela da Morte, justificando a forma relativamente simples com que ela foi explodida em Uma Nova Esperança. Ainda assim é possível argumentar que o filme bebe da mesma fonte de Akira Kurosawa de onde foram tiradas muitas das ideias de Star Wars. De A Fortaleza Escondida Lucas tirou a dupla atrapalhada e reclamona, a ideia da Princesa disfarçada e as transições estilosas que marcam toda a franquia espacial. Gareth Edwards, o diretor deste primeiro filme derivado, recorreu ao mais conhecido Os Sete Samurais para estruturar a missão suicida dos Rebeldes.

Isso faz com que Os Últimos Jedi seja a peça fundamental no plano da Disney para Star Wars. Tradicionalmente os segundos filmes das trilogias planejadas por Lucas são mais sombrias e adultas – O Império Contra-Ataca, Indiana Jones e o Templo da Perdição e O Ataque dos Clones – o que torna Os Últimos Jedi um desafio. Daí a entrada de Rian Johnson, diretor que vem do cinema independente e se tornou famoso depois de Looper: Assassinos do Futuro.

As críticas prévias são positivas, mas Star Wars, e George Lucas sempre compreendeu isso melhor do que ninguém, é sobre legado, especialmente imaterial, o que se reflete dentro dos filmes na necessidade de trazer equilíbrio para a Força e fora deles na forma como os elementos culturais penetram a cultura pop. Vender bonecos, no longo prazo, é apenas secundário.

Texto publicado originalmente na edição impressa da Gazeta do Povo.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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