Star Wars: O Despertar da Força

Star Wars: O Despertar da Força

Já se passou algum tempo desde a estreia do sétimo e mais novo Star Wars. Por conta disso, e pelo meu próprio estilo de escrita sobre cinema, vou me permitir mergulhar em alguns fatos que podem e devem ser considerados spoilers. Se você já tiver visto o filme e/ou não se importar com a revelação de algumas surpresas, siga lendo.

Depois do texto nos situando em que ponto da história estamos a câmera se movimenta para baixo, como é tradição, até enquadrar um planeta que vai sendo eclipsado pela grande sombra de um cruzador da Primeira Ordem. Se em Uma Nova Esperança a imagem é de uma pequena nave sendo perseguida pelo enorme Império – reforçando uma relação direta entre bem e mal – a abertura de O Despertar da Força adianta que o Lado Negro é uma sombra que se movimenta para cobrir a Luz. Este é o primeiro de uma séries de paralelos entre os Episódios IV e VII.

As histórias de Rey (Daisy Ridley) e Luke Skywalker (Mark Hamill) são muito parecidas. Ambos estão em um planeta deserto quando encontram um Droid que carrega uma mensagem importante para os rebeldes. Com um pouco de ajuda os dois escapam à bordo da Millenium Falcon para descobrir que a Força, antiga religião, é poderosa neles. Os dois filmes terminam com a destruição de uma grande arma dos inimigos. A sobreposição dos arcos é importante para que tenhamos aquela sensação de encontrar um velho conhecido, mas J.J. Abrams, diretor que escreveu o roteiro junto de Lawrence Kasdan, tem planos ainda mais ambiciosos, resgatando bem mais coisas da trilogia clássica.

George Lucas nunca chegou a entender o que tinha nas mãos. Tanto que uma das questões mais interessantes do ponto de vista político é a rejeição que o Império tinha às diferenças. Para o Imperador Palpatine, a ordem só é possível com a padronização mecanicista, representada pelo exercito de clones e pela própria desumanização de Vader. Abrams dá um passo à frente transformando a Primeira Ordem em uma espécie de fascistas do espaço, evocação sublinhada visualmente no discurso General Hux (Domhnall Gleeson) – que carrega na pronúncia do “r” criando um sotaque que remete aos discursos de Hitler em O Triunfo da Vontade (Triumph des Willens, 1935) – diante de suas tropas. Diversidade é um mal para estes vilões e precisa ser mitigado.

Daí a importância do trio protagonista apresentar diversidade racial e de gênero. Começando por Rey – uma bem-vinda protagonista feminina em uma franquia tradicionalmente dominada por homens – passando por Finn – vivido por John Boyega, filho de nigerianos – e fechando em Poe Dameron – papel do guatemalteca Oscar Isaac. A escalação de elenco reflete o espírito do filme, além de se inserir culturalmente no tempo em que foi lançado: diversidade de gênero e racial é uma questão importante em 2015 que se reflete diretamente em O Despertar da Força.

Uma Nova Esperança é um filme cheio de falhas que, por conta da paixão de fãs em buscar explicações e preencher os vazios, acabou por se tornar maior e melhor do que é de fato. O Despertar da Força faz o mesmo, mas de propósito. Abrams sabe que a maior parte da diversão virá de passar os próximos anos especulando sobre o que na maioria dos outros filmes seria considerado um furo de roteiro. Parte do poder de Star Wars está em não saber as coisas. Os filmes precisam parecer estar inseridos em um contexto maior do que o exibido ao longo da projeção.

Não sabemos como Finn, até então um Stormtrooper, se livrou da sua programação, adquirindo consciência. Também não sabemos se ele consegue se conectar com a Força em alguma medida. Tampouco sabemos como Rey fez para usar o truque mental Jedi ou vencer Kylo Ren (Adam Driver) em batalha, tanto mental quanto física. Ela havia sido treinada antes de ser abandonada no deserto? A Força é tão poderosa que ela aprende só de olhar? E, claro, não temos ideia da relação entre Kylo, os cavaleiros de Ren, que nem chegaram a aparecer, e o desde já famigerado Supremo Líder Snoke (Andy Serkis).

Temos indícios, porém, abrindo margem para especulação. Por exemplo, Rey vence Kylo por se permitir ter mais certezas em relação à Força, remetendo diretamente aos ensinamentos de Yoda – “faça ou não faça. Tentar não existe”. Ela não simplesmente fecha os olhos e fica mais forte. A cada ataque ela se torna ligeiramente mais habilidosa no manejo do sabre de luz e de seus poderes até conseguir sobrepujar o relutante vilão, o que se reflete na coreografia. Ou seja, mesmo os furos são milimetricamente desenhados para gerar discussão ainda que apresentando possibilidades de resposta.

É isso que faz Star Wars ganhar ares de transcendência e pertencimento. Parte da trama só se completa na medida em que nos engajamos para preencher suas lacunas, o que coloca os filmes como peças fundamentais de nossas vidas.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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