Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

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A palavra de ordem aqui é Legitimidade. Com “l” maiúsculo e tudo mais. Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância) é um filme sobre como parte de se sentir um ser humano completo envolve ter um monte de pessoas nos dizendo que somos muito bons naquilo que nos propomos fazer. No caso de Riggan Thomas (Michael Keaton), isso implica produzir, escrever, dirigir e estrelar uma peça da Broadway baseada no complexo e trágico conto What We Talk About When We Talk About Love, de Raymond Carver.

O que pega para Riggan é que ele é um ator que ficou mundialmente conhecido, vivendo o Birdman, um herói dos quadrinhos, no cinema. Isso lhe rendeu fama, mas não reconhecimento. Daí sua determinação em levar o projeto da peça adiante, contra todas as possibilidades. A peça é sua última chance de ser considerado um artista sério. De se legitimar, afinal.

Alejandro González Iñárritu, diretor e roteirista, recheia o filme com relações que se estendem para todos os lados. A mais óbvia, sublinhada pelo roteiro de tempos em tempos, é com o próprio Keaton: ator que ficou famoso no final dos anos 80 quando interpretou Batman duas vezes para Tim Burton. A menos evidente é a de Iñarritu, que busca se legitimar com o fim da parceria com Guillermo Arriaga, roteirista de Amores Brutos, 21 Gramas e Babel (basicamente tudo pelo qual Iñarritu é reconhecido), seguida da recepção vacilante à Biutiful, seu projeto seguinte.

Ainda que esses sejam os dois extremos das relações, Birdman traz um emaranhado dentro de si mesmo, que Iñarritu transforma em imagem ao optar por um longo plano-sequência que segue os personagens pelos bastidores do teatro ou pelas ruas de Nova Iorque. Ambos cenários filmados como se fossem intrincados labirintos. E vai além: note, por exemplo, como o diretor usa espelhos para preencher os quadros ao mesmo tempo que os usa para sublinhar a psicologia fragmentada da persona de Riggan, que fica conversando mentalmente o tempo todo com um alter-ego. Esse é um elemento que leva a uma leitura importante: os personagens do filme são reflexos distorcidos do próprio Riggan, ou do que significa sucesso e legitimidade.

Começando pelo Birdman, que é literalmente o ego dele se manifestando como uma voz em sua cabeça. É ele que diz que é bom demais para essa bobagem artística e que o que deveria fazer mesmo era vestir a roupa e atuar em um novo filme do herói. Afinal, super-heróis estão na moda novamente (e as piadas com Robert Downey Jr. no começo do filme são ótimas). Daí se deriva sua próxima relação, com Mike Shiner (Edward Norton), o ator consagrado na Broadway, mas um ilustre desconhecido nas ruas, que nutre uma relação doentia com o palco, o que afeta sua vida pessoal. Ou seja, dono do tipo de legitimidade que Riggan quer ser.

Essas correlações se estendem a todos os personagens, como à Sam Thompson (Emma Stone), sua filha, para quem sucesso verdadeiro é se tornar um vídeo viral no YouTube, ou algo que o valha. Ou Sylvia Thomson (Amy Ryan), ex-esposa de Riggan, que se contentaria com um marido presente nos momentos difíceis da família, erros que ele começa a repetir com Laura (Andrea Riseborough), atriz da peça e sua namorada.

Esse jogo ainda fica ainda mais interessante quando Riggan confronta Tabitha Dickinson (Lindsay Duncan), a maior crítica de teatro de Nova York, o que não apenas é mais um espelho para ele, como também para nós, críticos de cinema (afinal, um texto sobre um filme tão metalinguístico não poderia deixar de ter um momento auto-referente).

É Tabitha quem guarda as chaves do tipo de legitimidade que interessa a Riggan nesse momento. E pretende vender caro, refletindo muito mais um estereótipo da crítica de arte especializada – solitária, amarga e com ilusões de importância – do que um retrato preciso de alguém que deveria se propor a colocar as obras em perspectiva, em diálogo com o grande público. Menos um avaliador e mais um apreciador.

O que deixa claro como essa caricatura de crítica também é um reflexo da caricatura que também é Riggan e sua obsessão em se legitimar enquanto artista sério e relevante. É quando o personagem se torna menos um artifício de roteiro de Iñarritu e ganha vida própria, menos por deixar a teatralidade intrínseca da trama — artifício também metalinguístico — de lado e mais por ganhar contornos próprios em oposição aos seus pares. Ele também é solitário, amargo e cheio de ilusões de importância.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

2 de comentáriosDeixe um comentário

    • Olá Wania.

      Até acho que essa é uma leitura possível. Mas, para mim, o ego dos artistas é o alvo do filme. E aí você pode colocar desde os diretores (especialmente depois do star system ter se consolidado) até os produtores. Todos têm uma visão artística para um projeto que, no fundo, esconde a vontade de se manter relevante perante o público.

      Será que te respondo assim?

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