Game of Thrones – Battle of the Bastards

Game of Thrones - Battle of the Bastards

Texto cheio de spoilers. Como todos os outros deste site.

É incrível que um episódio tão raso quanto No One seja seguido por Battle of the Bastards, seguramente um dos mais interessantes de toda Game of Thrones. Há, claro, questões orçamentárias e narrativas a serem pesadas. Nem todos os episódios podem ser tão caros e empolgantes sob pena de falência e hiper-estímulo dos fãs. Mas, em uma última consideração sobre o oitavo episódio antes de mergulharmos nas batalhas por Meereen e Winterfell, precisava ser tão ruim assim?

Há um paralelo entre os dois conflitos que fica claro quando comparamos as cenas de negociação. Tanto os mestres de escravos quanto Ramsay Bolton (Iwan Rheon) oferecem arrogantemente termos de rendição para seus inimigos. Mas nem Daenerys Targaryen ou Jon Snow (Emilia Clarke e Kit Harrington) consideram por um momento esta possibilidade, devolvendo a proposta com uma bravata. Seus inimigos, afinal, nunca estiveram em uma batalha real, nem possuem a lealdade de seus homens para além de um salário.

As semelhanças terminam aí. Daenerys, ao contrário de Jon, está defendendo um território e possui poderio militar suficiente para vencer, além dos três dragões que vêm a calhar para impedir ataques pelo mar. Mas não basta apenas obliterar seus adversários, como lembra Tyrion Lanister (Peter Dinklage), é preciso deixar um legado. Daí a negociação. E o legado da Rainha Daenerys precisa ser um misto de medo e compaixão, horror e benevolência. A vitória é absoluta e o recado é dado: caso não se comportem, ela irá visitar as outras cidades. Aliada à propaganda que as sacerdotisas do Senhor da Luz estão fazendo, transformando Dany em uma emissária divida, a mensagem é eficaz.

Terminado o confronto nos portos de Meereen, Daenerys recebe os irmãos Yara e Theon Greyjoy (Gemma Whelan e Alfie Allen) para negociar as Ilhas de Ferro em troca de navios. É recorrente em toda trama de Game of Thrones o protagonismo feminino, que é sublinhado sem pudor nesta sequência. Algo que encontra ressonância com o périplo de Jon Snow, que, se não concorda, ao menos escuta parte da argumentação da irmã, Sansa Stark (Sophie Turner) e, em seguida, busca o conselho de Lady Melisandre (Carice van Houten), algo pouco comum. Não custa lembrar que Robb Stark (Richard Madden) perdeu a guerra ao não dar ouvidos aos conselhos de sua mãe.

Ramsay é o anti Jon, diferença notória ao longo das duas últimas temporadas que é reforçada durante a batalha dos bastardos. O motivo é narrativo: vencer o sádico usurpador de Winterfell é mais um passo para o ex Lorde Comandante se tornar o herói prometido – ele já morreu e ressuscitou, como na iconografia cristã, ratificando seu status. Por isso a benevolência e valentia de Jon Snow são colocadas o tempo todo em oposição à crueldade e covardia de Ramsay Bolton: Jon quer uma batalha direta para evitar mortes, enquanto Ramsay usa Rickon Stark (Art Parkinson) para desestabilizar o oponente; Jon parte na linha de frente, enquanto Ramsay se esconde atrás dos seus homens.

Toda a antecipação se recompensa na batalha. Cruel, sangrenta e cinematográfica como pouco se vê (não por acaso a direção é de Miguel Sapochnik, que comandou Hardhome, um dos melhores episódios da última temporada). A luta passa longe de um confronto coreografado, nos lembrando que há muito de sorte e azar em uma guerra, independente da habilidade do soldado. Toda a sequência é uma reverberação da fala de Melisandre: se Jon Snow sobreviver, é porque ele ainda tem um papel a cumprir.

O que não quer dizer que seja fácil, ou que ele não precise lutar pela sua vida. Poucas vezes Game of Thrones entregou uma sequência tão angustiante quanto a de Jon Snow sendo pisoteado e depois soterrado por corpos, precisando escalar paredes humanas para poder respirar. São demolidas as barreiras entre espectador e personagem. O mesmo ar que lhe escapa também nos falta. Ao emergir, a sobrevivência é menos pela esperança da vitória, com a óbvia chegada dos reforços de Petyr Baelish (Aidan Gillen) – a vitória óbvia torna a beleza estética do confronto necessária, inclusive –, do que pela vingança contra Ramsay.

No final, apesar de reconquistar Winterfell, Jon Snow está derrotado. Foram muitos os sacrifícios: as vidas de milhares de homens, incluindo Rickon e o último gigante, além da dívida moral para com Lord Baelish. Mas nenhum deles foi tão duro quanto a perda da alma de Sansa, que não apenas reforjou a aliança com o responsável por seus infortúnios, o manipulador que matou seu pai, mas se tornou, em parte, tão sádica quanto seu finado marido e captor, Ramsay.

Caberá a Jon decidir se Winterfell vale tanto assim nas guerras que virão.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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