Homem-Aranha: De Volta ao Lar

Homem-Aranha: De Volta ao Lar

A sanha hollywoodiana por lucros livres de riscos dita que uma propriedade com potencial de venda não ficará muito tempo sem receber uma nova versão e relançamento comercial. Para ser vendável, todavia, é preciso que a refilmagem apresente algo de novo, dizendo algo sobre o mundo em que vivemos. Portanto, para entender a que se propõe Homem-Aranha: De Volta ao Lar (Spider-Man: Homecoming, 2017) é preciso diferenciá-lo tanto da trilogia Homem-Aranha (Spider-Man, 2002, 2004 e 2007) quanto do díptico O Espetacular Homem-Aranha (The Amazing Spider-Man, 2012 e 2014). A até então inédita integração do personagem com o Universo Cinematográfico Marvel dá uma pista para começar este debate.

Na segunda cena de Homem-Aranha: De Volta ao Lar, logo depois de um diálogo entre Adrian Toomes (Michael Keaton) e um de seus funcionários sobre como aquele é um mundo novo depois dos eventos de Os Vingadores (The Avengers, 2012), vemos a Torre Stark no meio de Nova York. Diferente das tomadas dos outros filmes da Marvel, a câmera se movimenta para baixo, assumindo o ponto de vista de alguém que estaria na calçada, o que dá a dimensão do tamanho do prédio em relação a um eventual observador. Neste singelo enquadramento está a ambição deste filme: mostrar parte do efeito de se viver naquele universo da perspectiva das pessoas comuns.

Deste ponto de vista se desdobra a contribuição da atual encarnação de Peter Parker (Tom Holland) ao Universo Cinematográfico Marvel. Mais jovem, ele se afasta do percurso de amadurecimento da infância à vida adulta da trilogia com Tobey Maguire e da questão da responsabilidade inerente ao heroísmo dos dois filmes com Andrew Garfield – ambos, importante lembrar, temas também explorados dos quadrinhos. De Volta ao Lar apresenta um Homem-Aranha cujo arco de redenção envolve se aceitar adolescente e incapaz de lidar com as ameaças fora de sua alçada, mais comuns ao dia a dia dos Vingadores. Há, porém, outros problemas que precisam da ajuda de um vigilante bem intencionado.

Para trabalhar este discurso ao longo da trama, a Marvel recorreu mais uma vez à rotina que vem usando com suas produções: a compreensão de que “filme de herói” não é um gênero narrativo, mas sim um verniz contemporâneo que pode ser dado às narrativas clássicas. Quem vem em socorro do Amigão da Vizinhança é John Hughes com os clássicos juvenis dos anos 80. Curtindo a Vida Adoidado (Ferris Bueller’s Day Off, 1986) chega até a ser citado diretamente na cena que o homenageia, mas não é preciso muito esforço para reconhecer referências a Sem Licença Para Dirigir (License to Drive, 1988), Clube dos Cinco (The Breakfast Club, 1985), Gatinhas e Gatões (Sixteen Candles, 1984) e A Garota de Rosa-Shocking (Pretty in Pink, 1986), todos clássicos do gênero.

Abraçar os arquétipos do cinema de Hughes, filmes em que o protagonista mergulha em uma aventura inesperada que se transfigura em jornada de autoconhecimento, não apenas traz certa leveza ao universo do herói – leveza que fez falta nos filmes estrelados por Garfield –, como também permite delinear melhor seu arco dramático. Ele quer ser visto como adulto e isso significa conquistar o reconhecimento de Tony Stark (Robert Downey Jr.) que surge aqui como figura paterna substituta – ainda que o fantasma do Tio Ben não paire tão fortemente quanto nas outras encarnações do personagem. Sua vontade de ser legitimado, um interessante desdobramento da pressa de se sentir adulto e dos ritos de passagem das comédias oitentistas, estão na base tanto das boas sequências de ação quanto de boa parte das cômicas.

O Aranha de Holland se joga rumo ao perigo menos pelo senso de responsabilidade (“com grandes poderes…”, etc.) gerado pelo trauma de perder o tio, como acontecia com Maguire e Garfield, e mais por pensar que esta é a forma de chamar atenção de Stark. Difícil pensar em uma atitude mais tipicamente adolescente. Esta mesma atitude lhe coloca em diversas enrascadas que se avolumam em velocidade vertiginosa na medida em que ele reage tanto verbal quanto fisicamente aos desafios que seu comportamento intempestivo lhe possibilita. É impossível evocar Hughes sem que o personagem central se veja metido em “altas confusões”, afinal.

Com todos esses elementos a grata surpresa é o vilão Abutre. Bons antagonistas são raridade no cinema de heróis, salvo raras exceções (Stamp, Pfeiffer, Ledger, etc.). Este é um universo em que até mesmo um ator como Jeff Bridges se vê mais como um artifício de roteiro, responsável por realçar características do herói e pela cena de ação final, do que como um personagem de fato. Keaton, talvez por ter vivido Batman duas vezes e anos depois a paródia intelectualizada do cinema de herói, dá uma dimensão ainda inédita em um antagonista no Universo Marvel.

Junto do próprio Parker, é o Toomes de Keaton o personagem com quem o público mais diretamente dialoga. Suas motivações, inclusive, são semelhantes às do herói: uma reação do “homem comum” ao novo mundo de Deuses e Monstros que se estabelece depois dos eventos de Os Vingadores, metáfora da Marvel para o 11 de setembro. O Abutre só existe porque os trabalhadores braçais perderam espaço em um acordo entre milionários e governo para recolher a tecnologia alienígena resultante da Batalha de Nova York. Toomes, ante a perspectiva de quebrar, só quer proteger sua família da miséria. Ele é um vilão da transição da Era Obama para a Era Trump. E isso não é pouca coisa.

Não é a primeira vez que a Marvel se arrisca em um discurso sócio-político engajado. Homem de Ferro 2 (Iron Man 2, 2010) é uma elegia ao liberalismo econômico digno de Ayn Rand e Capitão América 2: O Soldado Invernal (Captain America: The Winter Soldier, 2014) critica duramente o estado de vigilância dos EUA, para ficar nos mais óbvios. Em comparação, De Volta ao Lar é até bastante discreto, mas através de Toomes oferece um ponto de vista ainda inédito em um universo dominado por mega-empresários, agentes governamentais, ciborgues psicóticos e super-cientistas: um vilão cuja preocupação é a conta de luz.

O Peter Parker de Holland reage a estas mesmas questões, ainda que se sinta merecedor de um lugar junto aos “adultos”. Sua humanização vem da forma como ele se importa com o imigrante dono da vendinha da esquina que é ameaçado pelas armas que a operação de Toomes coloca nas mãos de bandidos ordinários. Diferente do Abutre, porém, o herói não quer apenas proteger os seus, pouco importando os demais. Sua força vem da empatia com que enxerga o outro e daí vem seu verdadeiro amadurecimento. Ser adulto, para Homem-Aranha: De Volta ao Lar, é compreender o seu lugar no mundo e agir como tal.

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Luiz Gustavo Vilela

Luiz Gustavo Vilela é jornalista formado pela PUC-Minas, especialista em Comunicação e Cultura pela UTFPR e mestrando em Comunicação e Linguagens pela UTP. Entre 2011 e 2015 foi crítico de cinema no Portal POP.

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